terça-feira, março 22, 2016

Hoje já é quase amanhã
E eu lembro quase tudo que quase fiz
Quase disse a palavra burilada na garganta
Quase dei o abraço germinado no peito
Quase escrevi o poema adormecido na pena
Quase morri a morte distraída
Quase voei sobre as casas da Lapa no alvorecer de Chagal 
Quase mordi a boca oferecida
E revi pra chorar convulsiva
Amélie dissolver quase entregue em purpurinas dissonantes
Quase ...
Ah! Queridas reticências!
De verbo suspenso de quase ação
Quase amei intransitivamente meu querido Mário!
Quase cheguei e perdi o horário
Quase!
E como pessoa: vil, ridículo, perdulário

fui clown-bissexto
e perdi a corrida de marcha à ré
e perdi o bonde
e quase sorri
mas quase é tempo não nascido
não contado
é tom sépia 
desmaiado
quase é o tempo que esses tempos não conhecem 
só há flit, flash, fast
Ávidos 
quando quase chegam já se vão
De hoje amanhã nem cheiro têm
tempos sem tempo de cozer em forno a lenha 
de Penélope puída
em que não cabe o tempo plácido 
tempos de futuro do pretérito preterido
pois quando ia já não vai
só o presente contínuo de gozo imediato
e já é
onde amores fluidos 
se vão diluídos
nos olhos quase profundos...
Que à noite vêm


terça-feira, setembro 16, 2014


meu peito puído

só deixa linhas pelo chão


quarta-feira, novembro 20, 2013

o silêncio
preciso
que a noite traz

é  só o que preciso
e a aurora desfaz

vem cá aurora
te calar comigo


sexta-feira, novembro 01, 2013


dia de hoje
é sal na língua
sol no peito
cio na terra
e céu na boca

sexta-feira, outubro 18, 2013

aberta é minha boca pra te receber
inteira
infinita
em sorrisos
em gracejos
em desejo
indeciso
 aberta é minha alma pra te perceber
inteira
infinita
em concisos
 lampejos
em  volteios
imprecisos

aberta é minha lira pra te conceber
inteira
infinita
sem rimas
ou métricas
entregue, apenas.


hoje eu parti
ao meio

dia

hoje eu saí
meio

tonto

hoje eu abri
um meio
sorriso

e distribuí
meias palavras

hoje eu desci
meio tom

eu hoje me vi
inteiramente só.



segunda-feira, outubro 14, 2013


não
mais
mas

não


sábado, outubro 05, 2013

Hoje foi tão bom que ainda estou flutuando. 
E sigo por sobre a cidade vendo aqui do alto o mundo pequeno do qual preciso escapar.

“Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas.”

Hoje sinto reverberar no corpo o entusiasmo que só sinto no teatro.
Lá não preciso de crachá, currículo, título ou sobrenome. 
Lá um borrifador vira chafariz e vira cachoeira e vira lágrima.
E um lenço vira bandeira e vira luva e vira bebê.
Lá eu viro Ofélia e viro Ninfa e viro uma das Erínias.
Lá, no Teatro, o Tempo e o Espaço se dissolvem e se recompõem amalgamando sorrisos e dores, vales e precipícios, amores e fúrias.
Mas o teatro não está lá. Ele é aqui. Dentro. Ardendo na garganta
Se derramando no peito. Transbordando pela boca.
O que vivi hoje, no Hotel da Loucura, já senti antes.
Mas nem lembrava mais como era.
E hoje foi um reencontro. Com um abraço demorado, acolhedor, terno e cúmplice.
Reencontro faminto, sedento, ávido, urgente. Com saudade de quem nunca devia ter me separado. Mas que agora não largo mais!
Não quero fazer outra coisa da vida.

sábado, setembro 21, 2013



 chegou a primavera
já faz dias 
e quem disse que eu sabia?
faz dias ou eras?






segunda-feira, setembro 09, 2013

enquanto é sol

enquanto é sol
estala a língua
abre a boca
estica os braços
e lança o peito

enquanto é sol
infla as bochechas
arreganha os dentes
fecha os olhos
e sente

enquanto é sol
apura os ouvidos
apara as arestas
permite as pernas
e descansa os pés

enquanto é sol
estende as mãos
apeia os ombros
deita a cabeça
e degusta o silêncio

enquanto é sol
não há dúvida
medo
incerteza
só o sol
inteiro
dentro
(de) em si.




sábado, agosto 03, 2013

eu tenho é pressa mainha
que agora é o tempo
da hora marcada
que amanhã começa hoje
e já nem lembro quando mais

eu tenho é pressa mainha
porque me distraio
enquanto espero
e se sei que é sonho tanto faz

eu tenho é pressa mainha
que a pressa não seja precisa
que a hora não haja que marcar
que hoje não se perca no tempo
que o sonho não espere pra chegar
distraído abraçar




segunda-feira, junho 03, 2013

às vezes sinto frio
e junto os pés no meio da rua
às vezes sinto fome e enrolo os braços
na frente do peito
às vezes sinto medo
e aperto os dedos dentro da mãos
às vezes as mãos se apertam no meio do peito
 às vezes os braços se enrolam  na frente dos pés
às vezes as ruas se juntam dentro das mãos
às vezes acho que não sinto
mas a espinha já está dobrada






domingo, abril 21, 2013

é condor mesmo...

é com dor
é com dor mesmo
que vai
é com dor
com dor
condor
voando pra longe
onde a dor se esvazia

é com dor mesmo
que vai
quem diria

é com dor
com dor
condor

levando consigo teus ais
e voando pra onde nem se via


Chuva fina

chuva fina
nem molha
nem faz frio no peito
chuva fina
nem se percebe
nem se sente direito
chuva fina é devagarinho
quase sumida
ninguém vê
e quando o espirro vem
é que se sabe que a alma tá encharcada
"o que não mata, engorda"
dizia vó Terezinha limpando meu joelho
levantando a bicicleta,
puxando o dente de leite,
sacudindo o casaco
ajeitando a maria-chiquinha
"o que não mata engorda, minha filha"
vó dizia
e ainda ouço hoje
quando o joelho arde
a bicicleta derrapa
o dente balança
o casaco desfia
e o olhar turva
onde está vó Terezinha agora?
 não sei
Mas está aqui
todo dia
comigo


sábado, abril 13, 2013

é fome menina
que esse garoto sente
não pára quieto
olha pra todo lado
cola em tudo que é gente
é fome
 imagina
e fala e faz e nem pensa pra quê
ele só quer comer junto
e arrotar no meio da gargalhada
numa tarde de domingo...
é fome sim
quem duvida?
fome de cor
de brilho
de gosto
e saliva
inteiro
pela vida
que há de viver.



sábado, abril 06, 2013

POÉTICA 

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira

sexta-feira, novembro 09, 2012


eita que é saudade só o que eu sinto

chiando aqui no peito feito  apito

e quando mais tempo passa

mais minto

que em tudo há  graça

e  acredito

eita que é cansaço só e consinto

 assim ficar agora

meu grito

quieto, morno, fraco,encolhido

ou manso, tonto, parvo, recolhido

ou manco, magro, fluido, esquecido

esperando a hora

 de ser rugido






quarta-feira, setembro 05, 2012

quinta-feira, junho 14, 2012