domingo, junho 07, 2009

o que dizer?
se não disse
como se preferisse
esconder

algo do qual talvez se risse
por considerar tolice
ou por não compreender

ou escolher
como Alice
caminhos que, se seguisse,
poderiam desfazer


convicções que impedissem
se perder

domingo, maio 17, 2009

Todo dia

É fácil de entender
Então porque perguntar
se o certo é não se perder
O silêncio vai te encontrar

Isso que assim transborda
Um pouco e tanto todo dia

Na voz, nas mãos, na rua
No beijo na vizinha

Do que sou e que não digo
se abriga então aqui
Pequeno. Só. Escondido.
Dissolvido
dentro de mim


"Todo dia", letra da música que acabei de fazer...

quarta-feira, abril 01, 2009

Tamarindo

gosto bom
esse que fica

do hálito
que aquece a espinha

da conversa que abraça o espírito

da ausência que ocupa espaço
e aperta o tempo
pra fazer chegar a hora de encontrar

ah! saboreio
de vagar

as (meias) palavras (quase) ditas
ou o silêncio (mal) sustentado
que (nos) apresentam nossos pontos (...)
em (in) comum(s)!

ah! sorvo

de-li-ca-da-men-te

esse gosto
que fica!
agridoce

caro tamarindo.

quarta-feira, março 18, 2009

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente 'inda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna, a nossa cama reclama
Do nosso eterno espreguiçar
No colo da bem vinda companheira
No corpo do bendito violão

Eu faço samba e amor a noite inteira
Não tenho a quem prestar satisfação

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade. Que alarde!
Será que é tão difícil amanhecer?
Não sei se preguiçoso ou se covarde
Debaixo do meu cobertor de lã

Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã.

Chico (LINDO!)

sábado, março 14, 2009

é hoje o dia que esperei
e que não volta mais
é hoje
a bebida mais forte
a boca mais aberta
o olho mais vivo
a pele mais quente

agora mesmo
e quando mais?

instante

instável

imediato

desmedido

sábado, março 07, 2009

Assim

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

sabemos

hoje provei um vestido pensando em você
olhei, virei, girei no espelho, dancei no provador
experimentando os volteios que trariam seu olhar pra mim
pensei qual seria seu pretexto pra dizer que eu "estava bem"
medi o comprimento: nem longo, que não vou pra festa, nem curto que não me acostumo
vi se tava amassando o peito, apertando a cintura, mostrando a calcinha
não, não tava
joguei o cabelo pra lá e pra cá
fiz cara de surpresa, ensaiando um improviso que certamente eu previ e que provoquei
amarrei as três fitinhas azuis, didaticamente, porque claro, você não saberia como fazer
alguns passos assim, assim, calculando meticulosamente o acaso de te encontrar, o sorriso espontâneo, o cumprimento formal, o abraço contido e olhar escorregadio
e as mãos. Ah! Fiéis companheiras que me dão frações do teu corpo.

torci, retorci, mirei, estudei, refiz o trajeto da coincidência
diluí o desejo sob a atitude correta: a discrição

mais comum e previsível impossível, sabemos

me espalhei, imaginei, suspirei, colori
e fui ao caixa obter o ingresso do meu sonho

passei direto e deixei o tótem ali no cabide
amassado, perdido, desprovido, inerte, inútil
como um abrigo que serviu ao devaneio
estou na janela
olhando pro tempo
daqui do meu canto
espiando, espreitando
pra ver se não perco de vista
o que já fui

domingo, fevereiro 01, 2009

saudades de Brecht

Perguntas De Um Operário Que Lê.

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?


Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

...



Privatizado

"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."

domingo, janeiro 11, 2009

ainda há

hoje eu amei
delicadamente.
leitura em braile
seus poros
suas costas
asperezas nas mãos
li seus caminhos

hoje eu amei
perdidamente.
me deixei te abraçar
o medo me fez rir
pude ser feliz
justo por isso
não. ainda não vi tudo
que bom!
ainda há.
nas pontas dos dedos e dentro de mim
eu ri

hoje eu amei
livremente
ah! a "menina"
entregue e inteira
é o que transborda de meu hálito

hoje eu amei
suavemente
e a mim ratifiquei quem sou

sexta-feira, janeiro 09, 2009

quarta-feira, dezembro 03, 2008

hum
fiquei com vontade
de novo
pensei que esqueceria
fazia tempo que pensava
não sentir falta
mas é mesmo
só chegar perto
ficar às voltas
o cheiro
a coisa que não se explica
vai entender...
eu não
só ficando longe
distraindo a vista
desviando o peito
porque vivo sim
sem esse negócio
quando quiser eu paro
já disse
já parei várias vezes
só preciso da distância segura
só preciso não ver
mais que vejo
pois que preciso
respirar mais solto
"deixa isso pra lá"
"vai e busca"
é a voz andrógina
ancorada no cerebelo
e eu prá lá e prá cá
eu o próprio vencido me convencendo do contrário
então vou e volto
parto e fico
espero e desisto
insisto e assisto ao recomeço
e ainda assim segue a cena
e mais um persongem me abriga