
terça-feira, julho 10, 2007
sexta-feira, junho 29, 2007
Caminhos
quinta-feira, junho 28, 2007
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Os poemas - Mário Quintana. Esconderijos do Tempo.
segunda-feira, junho 25, 2007
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Trechos de Os Estatutos do Homem de Thiago de Mello
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Trechos de Os Estatutos do Homem de Thiago de Mello
quinta-feira, junho 21, 2007
terça-feira, junho 19, 2007
Abraço e abrigo
Certo, certo. Isto é um blog. Ou um diário, melhor dizendo - para seguir os conselhos do Mestre Ariano Suassuna - este cavaleiro que aos oitenta anos se renova como defensor da cultura genuinamente nacional.
Isso em tempos de globalização.
E para manter um diário virtual “atualizado” nada como recorrer ao revolucionário método de inspiração instantânea conhecido como “copiar e colar” que adotei nessas últimas semanas para manter o Café Noturno movimentado.
Afinal incrementar o próprio espaço com os textos dos outros é refresco...
E que “outros”.
Então permaneci muito bem acompanhada por Carlos, Arnaldo, Marina, Clarice...
No entanto, hoje, depois de quase um mês sem mexer a pena, (ou o teclado), e tendo já saciado a meninice com a gincana proposta por uma amiga de manter o diário agitado com artigos sobre o amor, eis que novamente arrisco compartilhar impressões e palpites.
E estou em estado de graça.
Sob impacto de Brecht, Beckett, Ariano e Tadashi Endo.
Tudo ao mesmo tempo agora aqui dentro fervilhando e transbordando em histórias que quero contar ao pé do ouvido.
Nunca tive tanta certeza como hoje de que devo alimentar dúvidas necessárias.
Brecht convida à ação, à luta, ao despertar da consciência.
Provoca, perturba, sacode, puxa pela gola da camisa, questiona, grita, busca, alcança, olha no olho: “e você o que pode fazer pra mudar essa realidade?”
“Qual é o seu papel nessa situação?”
Beckett apresenta a inércia, a letargia, lassidão. Catalepsia coletiva. O silêncio.
O imobilismo. A ausência. O vazio. O deserto. O ar em suspensão. O labirinto.
O olhar em soslaio que constrange sem qualquer palavra.
Um, a convocação. O outro a indiferença (?).
Um, a exclamação. O outro, a reticência.
Um, a interrogação. O outro, ponto-parágrafo.
Em ambos, o lirismo. A beleza. A condição humana. O Homem e sua relação com o poder.
O poder que há no Homem, para a transformação e para a destruição.
Margens diferentes de um mesmo rio. Eu quero deitar nessas margens.
Beber desse rio.
Nunca tive tantas dúvidas quanto a certezas indissolúveis.
Quanto ao discurso único.
E Ariano? Só os artistas dispensam pronomes de tratamento relativos à idade ou condição social. E por isso posso chamar este senhor com jeito de avô que conta histórias pra gente dormir, pelo primeiro nome. E posso babar, na fila do gargarejo em palestra de fim de tarde.
E ter menos medo, (ou pudor), do que há de quixotesco em mim. Ainda há espaço pra delicadezas e altruísmo. Ainda há tempo pra mãos abertas e olhares estendidos.
Ainda há abraço e abrigo.
Não, não é o fim da História. Mais que nunca hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!
E Tadashi Endo. Este senhor japonês de sessenta anos de idade, com corpinho de vinte e alma milenar. Bailarino, coreógrafo e diretor do Mamu Butoh Center, Tadashi dirigiu o espetáculo
Shi-zen, 7 cuias do grupo Lume e com ele recebeu duas indicações ao Prêmio Shell.
Agora Tadashi vem comemorar seus sessenta anos (inacreditáveis!!!).
Com uma série de apresentações viscerais, intestinais, uterinas (??!!!)
Olhos e bocas, músculos e tônus. Força que traduz delicadeza.
Virtuosismo? Que seja. Ele sabe o que faz e pra quê faz. E transborda, nos alcança e constrange por nosso modo blasé ocidental. E por isso mesmo nos encanta.
Movimentos mínimos, precisos, e, intensos. Tesão e carinho.
Estes senhores são os pilares que tornam a vida suportável.
Não preciso de droga. Não é discurso moralista, é confessional. Gostaria que mais pessoas os conhecessem...
Nunca tive tanta certeza quanto à resposta para a questão: Por que fazer arte?
Para existir.
Isso em tempos de globalização.
E para manter um diário virtual “atualizado” nada como recorrer ao revolucionário método de inspiração instantânea conhecido como “copiar e colar” que adotei nessas últimas semanas para manter o Café Noturno movimentado.
Afinal incrementar o próprio espaço com os textos dos outros é refresco...
E que “outros”.
Então permaneci muito bem acompanhada por Carlos, Arnaldo, Marina, Clarice...
No entanto, hoje, depois de quase um mês sem mexer a pena, (ou o teclado), e tendo já saciado a meninice com a gincana proposta por uma amiga de manter o diário agitado com artigos sobre o amor, eis que novamente arrisco compartilhar impressões e palpites.
E estou em estado de graça.
Sob impacto de Brecht, Beckett, Ariano e Tadashi Endo.
Tudo ao mesmo tempo agora aqui dentro fervilhando e transbordando em histórias que quero contar ao pé do ouvido.
Nunca tive tanta certeza como hoje de que devo alimentar dúvidas necessárias.
Brecht convida à ação, à luta, ao despertar da consciência.
Provoca, perturba, sacode, puxa pela gola da camisa, questiona, grita, busca, alcança, olha no olho: “e você o que pode fazer pra mudar essa realidade?”
“Qual é o seu papel nessa situação?”
Beckett apresenta a inércia, a letargia, lassidão. Catalepsia coletiva. O silêncio.
O imobilismo. A ausência. O vazio. O deserto. O ar em suspensão. O labirinto.
O olhar em soslaio que constrange sem qualquer palavra.
Um, a convocação. O outro a indiferença (?).
Um, a exclamação. O outro, a reticência.
Um, a interrogação. O outro, ponto-parágrafo.
Em ambos, o lirismo. A beleza. A condição humana. O Homem e sua relação com o poder.
O poder que há no Homem, para a transformação e para a destruição.
Margens diferentes de um mesmo rio. Eu quero deitar nessas margens.
Beber desse rio.
Nunca tive tantas dúvidas quanto a certezas indissolúveis.
Quanto ao discurso único.
E Ariano? Só os artistas dispensam pronomes de tratamento relativos à idade ou condição social. E por isso posso chamar este senhor com jeito de avô que conta histórias pra gente dormir, pelo primeiro nome. E posso babar, na fila do gargarejo em palestra de fim de tarde.
E ter menos medo, (ou pudor), do que há de quixotesco em mim. Ainda há espaço pra delicadezas e altruísmo. Ainda há tempo pra mãos abertas e olhares estendidos.
Ainda há abraço e abrigo.
Não, não é o fim da História. Mais que nunca hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás!
E Tadashi Endo. Este senhor japonês de sessenta anos de idade, com corpinho de vinte e alma milenar. Bailarino, coreógrafo e diretor do Mamu Butoh Center, Tadashi dirigiu o espetáculo
Shi-zen, 7 cuias do grupo Lume e com ele recebeu duas indicações ao Prêmio Shell.
Agora Tadashi vem comemorar seus sessenta anos (inacreditáveis!!!).
Com uma série de apresentações viscerais, intestinais, uterinas (??!!!)
Olhos e bocas, músculos e tônus. Força que traduz delicadeza.
Virtuosismo? Que seja. Ele sabe o que faz e pra quê faz. E transborda, nos alcança e constrange por nosso modo blasé ocidental. E por isso mesmo nos encanta.
Movimentos mínimos, precisos, e, intensos. Tesão e carinho.
Estes senhores são os pilares que tornam a vida suportável.
Não preciso de droga. Não é discurso moralista, é confessional. Gostaria que mais pessoas os conhecessem...
Nunca tive tanta certeza quanto à resposta para a questão: Por que fazer arte?
Para existir.
segunda-feira, junho 18, 2007
sexta-feira, junho 15, 2007
Outras Pessoas: Arnaldo
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.
O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano.
Isso são só referenciais.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Você ama aquela petulante.
Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.
Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, nem no ódio vocês combinam.
Então?
Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha.
Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga.
Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?
Não pergunte pra mim, você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.
É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar.
Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso.
Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.Crônica de Amor - Arnaldo Jabor
quinta-feira, junho 14, 2007
Outras Pessoas: Carlos
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
As sem-razões do amor - Carlos Drummond de Andrade
http://img.youtube.com/vi/PgQalo1T5ZU/2.jpg
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
As sem-razões do amor - Carlos Drummond de Andrade
http://img.youtube.com/vi/PgQalo1T5ZU/2.jpg
quarta-feira, junho 13, 2007
Outras Pessoas: Marina
Teu corpo é canoa
em que desço
vida abaixo
morte acima
procurando o naufrágio
me entregando à deriva.
Teu corpo é casulo
de infinitas sedas
onde fio
me afio e enfio
invasor recebido
com licores.
Teu corpo é pele exata
para o meu pena de garça
brilho de romã
aurora boreal
do longo inverno.
Corpo adentro - Marina Colasanti
Jogo o tempo
na água
E ele
nada.
Constatação Metafísica - Marina Colasanti
em que desço
vida abaixo
morte acima
procurando o naufrágio
me entregando à deriva.
Teu corpo é casulo
de infinitas sedas
onde fio
me afio e enfio
invasor recebido
com licores.
Teu corpo é pele exata
para o meu pena de garça
brilho de romã
aurora boreal
do longo inverno.
Corpo adentro - Marina Colasanti
Jogo o tempo
na água
E ele
nada.
Constatação Metafísica - Marina Colasanti
terça-feira, junho 12, 2007
Outras Pessoas: Artur
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil.
Mas namorado mesmo é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.
Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.
Ter ou não ter namorado: eis a questão de Artur da Távola.
Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia.
Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil.
Mas namorado mesmo é muito difícil.
Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar.
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.
Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.
Ter ou não ter namorado: eis a questão de Artur da Távola.
segunda-feira, junho 11, 2007
Outras Pessoas: Clarice
Mas há a vida
que é para ser intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Mas há a vida de Clarice Lispector.
que é para ser intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.
Mas há a vida de Clarice Lispector.
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo.
Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar.
P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilarecerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
"PRECISA-SE" de Clarice Lispector
quarta-feira, junho 06, 2007
terça-feira, junho 05, 2007
Outras Pessoas: Brecht
Privatizado
Nada é impossível de Mudar
O Analfabeto Político
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo
Contra a sedução
Nunca se deixem seduzir
Não há caminho de regresso
Penetra o dia pelas portas
Durante a noite o vento sopra
Mas a manhã não volta mais.
Nunca se deixem convencer
De que esta vida vale pouco
Bebam a vida em grandes goles
Então verão que ainda foi pouco
Quando tiverem de a deixar.
Não vivam nunca de esperar
O tempo é muito limitado
Deixem mofar os incapazes
O grande bem é a própria vida
Vive-se apenas uma vez.
Nunca se deixem enganar
No mundo há fome e servidão
Qual o motivo de ter medo?
Como animais os homens morrem
E após a morte não há nada.
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Os que lutam
"Há aqueles que lutam um dia e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis."
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário.
E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence."
Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar."
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo
Contra a sedução
Nunca se deixem seduzir
Não há caminho de regresso
Penetra o dia pelas portas
Durante a noite o vento sopra
Mas a manhã não volta mais.
Nunca se deixem convencer
De que esta vida vale pouco
Bebam a vida em grandes goles
Então verão que ainda foi pouco
Quando tiverem de a deixar.
Não vivam nunca de esperar
O tempo é muito limitado
Deixem mofar os incapazes
O grande bem é a própria vida
Vive-se apenas uma vez.
Nunca se deixem enganar
No mundo há fome e servidão
Qual o motivo de ter medo?
Como animais os homens morrem
E após a morte não há nada.
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
Os que lutam
"Há aqueles que lutam um dia e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis."
segunda-feira, junho 04, 2007
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