sábado, setembro 21, 2013



 chegou a primavera
já faz dias 
e quem disse que eu sabia?
faz dias ou eras?






segunda-feira, setembro 09, 2013

enquanto é sol

enquanto é sol
estala a língua
abre a boca
estica os braços
e lança o peito

enquanto é sol
infla as bochechas
arreganha os dentes
fecha os olhos
e sente

enquanto é sol
apura os ouvidos
apara as arestas
permite as pernas
e descansa os pés

enquanto é sol
estende as mãos
apeia os ombros
deita a cabeça
e degusta o silêncio

enquanto é sol
não há dúvida
medo
incerteza
só o sol
inteiro
dentro
(de) em si.




sábado, agosto 03, 2013

eu tenho é pressa mainha
que agora é o tempo
da hora marcada
que amanhã começa hoje
e já nem lembro quando mais

eu tenho é pressa mainha
porque me distraio
enquanto espero
e se sei que é sonho tanto faz

eu tenho é pressa mainha
que a pressa não seja precisa
que a hora não haja que marcar
que hoje não se perca no tempo
que o sonho não espere pra chegar
distraído abraçar




segunda-feira, junho 03, 2013

às vezes sinto frio
e junto os pés no meio da rua
às vezes sinto fome e enrolo os braços
na frente do peito
às vezes sinto medo
e aperto os dedos dentro da mãos
às vezes as mãos se apertam no meio do peito
 às vezes os braços se enrolam  na frente dos pés
às vezes as ruas se juntam dentro das mãos
às vezes acho que não sinto
mas a espinha já está dobrada






domingo, abril 21, 2013

é condor mesmo...

é com dor
é com dor mesmo
que vai
é com dor
com dor
condor
voando pra longe
onde a dor se esvazia

é com dor mesmo
que vai
quem diria

é com dor
com dor
condor

levando consigo teus ais
e voando pra onde nem se via


Chuva fina

chuva fina
nem molha
nem faz frio no peito
chuva fina
nem se percebe
nem se sente direito
chuva fina é devagarinho
quase sumida
ninguém vê
e quando o espirro vem
é que se sabe que a alma tá encharcada
"o que não mata, engorda"
dizia vó Terezinha limpando meu joelho
levantando a bicicleta,
puxando o dente de leite,
sacudindo o casaco
ajeitando a maria-chiquinha
"o que não mata engorda, minha filha"
vó dizia
e ainda ouço hoje
quando o joelho arde
a bicicleta derrapa
o dente balança
o casaco desfia
e o olhar turva
onde está vó Terezinha agora?
 não sei
Mas está aqui
todo dia
comigo


sábado, abril 13, 2013

é fome menina
que esse garoto sente
não pára quieto
olha pra todo lado
cola em tudo que é gente
é fome
 imagina
e fala e faz e nem pensa pra quê
ele só quer comer junto
e arrotar no meio da gargalhada
numa tarde de domingo...
é fome sim
quem duvida?
fome de cor
de brilho
de gosto
e saliva
inteiro
pela vida
que há de viver.



sábado, abril 06, 2013

POÉTICA 

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira

sexta-feira, novembro 09, 2012


eita que é saudade só o que eu sinto

chiando aqui no peito feito  apito

e quando mais tempo passa

mais minto

que em tudo há  graça

e  acredito

eita que é cansaço só e consinto

 assim ficar agora

meu grito

quieto, morno, fraco,encolhido

ou manso, tonto, parvo, recolhido

ou manco, magro, fluido, esquecido

esperando a hora

 de ser rugido






quarta-feira, setembro 05, 2012

quinta-feira, junho 14, 2012

quinta-feira, maio 03, 2012

como se foi ontem

é como se foi ontem
tão tanto ainda no peito
 do tantim de sorriso que vinha
da faísca do olho suspeito
 do fôlego que se perdia

 lembrança é fio sumido
somente sombra comigo abrigada
vem só quando a noite se guarda
quando pia rolim em dia chuvido

é como se foi ontem
e tão tanto no peito ainda
do tantin que teu olho me dava
do silêncio inquieto que me ardia

 é hoje noite
 que sombra traz
mais uma vez fio sumido
no pio de rolim

outra vez
faísca inquieta
silêncio incapaz
falta fôlego
e paz

em mim





segunda-feira, março 05, 2012

 é feito areia fina
feito farinha d'água
ou  pó de borboleta
nome não falta pra dar

faísca serve de apelido
ou fagulha que fácil se vê
palavras tantas que há
mesmo se o senso falha ao dizer

mas hesito definir
se o vaticínio assim assusta
deixa o rio só seguir
calar aqui guardado já não me custa

silêncio é ninho que acolhe
e nele abrigo
o que dentro do peito se recolhe
nessa cantiga de amigo



sexta-feira, novembro 18, 2011

um dia

dispense o sorriso ensaiado
o tom comportado
e vá embora

não pense no céu nublado
guarda-chuva quebrado
no frio lá fora

tudo vai se assentar
agora

esse tempo deve passar
um dia










quarta-feira, outubro 26, 2011

eu quero é esse sol imenso
rasgado
se derramando sobre mim
que eu
de boca arreganhada
o recebo
e concebo
mil raiozinhos febris
infantis
pululando no peito inflamado
de vida
eu olho pro meio da rua
sozinha
enquanto partidos leiloam idéias
passeio no passeio público vazio
o que não falta é fé
porque ainda vai dar pé
me negue quem quiser
pra chegar lá

quem

disse?

porque ainda vai dar pé
que negue quem quiser
o que não falta é fé
pra se chegar

onde?

terça-feira, outubro 04, 2011

dos dias chuvosos
fica
a brisa nas mãos
a sombrinha atrás da porta


e a boca aberta mirada pro céu
a saborear a rua no meio da vida.

segunda-feira, setembro 12, 2011

dos dias perdidos num tempo
que dorme
calado
sereno
sob
a memória
distraída