é hoje o dia que esperei
e que não volta mais
é hoje
a bebida mais forte
a boca mais aberta
o olho mais vivo
a pele mais quente
agora mesmo
e quando mais?
instante
instável
imediato
desmedido
sábado, março 14, 2009
sábado, março 07, 2009
Assim
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Ferreira Gullar
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
sabemos
hoje provei um vestido pensando em você
olhei, virei, girei no espelho, dancei no provador
experimentando os volteios que trariam seu olhar pra mim
pensei qual seria seu pretexto pra dizer que eu "estava bem"
medi o comprimento: nem longo, que não vou pra festa, nem curto que não me acostumo
vi se tava amassando o peito, apertando a cintura, mostrando a calcinha
não, não tava
joguei o cabelo pra lá e pra cá
fiz cara de surpresa, ensaiando um improviso que certamente eu previ e que provoquei
amarrei as três fitinhas azuis, didaticamente, porque claro, você não saberia como fazer
alguns passos assim, assim, calculando meticulosamente o acaso de te encontrar, o sorriso espontâneo, o cumprimento formal, o abraço contido e olhar escorregadio
e as mãos. Ah! Fiéis companheiras que me dão frações do teu corpo.
torci, retorci, mirei, estudei, refiz o trajeto da coincidência
diluí o desejo sob a atitude correta: a discrição
mais comum e previsível impossível, sabemos
me espalhei, imaginei, suspirei, colori
e fui ao caixa obter o ingresso do meu sonho
passei direto e deixei o tótem ali no cabide
amassado, perdido, desprovido, inerte, inútil
como um abrigo que serviu ao devaneio
olhei, virei, girei no espelho, dancei no provador
experimentando os volteios que trariam seu olhar pra mim
pensei qual seria seu pretexto pra dizer que eu "estava bem"
medi o comprimento: nem longo, que não vou pra festa, nem curto que não me acostumo
vi se tava amassando o peito, apertando a cintura, mostrando a calcinha
não, não tava
joguei o cabelo pra lá e pra cá
fiz cara de surpresa, ensaiando um improviso que certamente eu previ e que provoquei
amarrei as três fitinhas azuis, didaticamente, porque claro, você não saberia como fazer
alguns passos assim, assim, calculando meticulosamente o acaso de te encontrar, o sorriso espontâneo, o cumprimento formal, o abraço contido e olhar escorregadio
e as mãos. Ah! Fiéis companheiras que me dão frações do teu corpo.
torci, retorci, mirei, estudei, refiz o trajeto da coincidência
diluí o desejo sob a atitude correta: a discrição
mais comum e previsível impossível, sabemos
me espalhei, imaginei, suspirei, colori
e fui ao caixa obter o ingresso do meu sonho
passei direto e deixei o tótem ali no cabide
amassado, perdido, desprovido, inerte, inútil
como um abrigo que serviu ao devaneio
domingo, fevereiro 01, 2009
saudades de Brecht
Perguntas De Um Operário Que Lê.
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
...
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
...
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."
domingo, janeiro 11, 2009
ainda há
hoje eu amei
delicadamente.
leitura em braile
seus poros
suas costas
asperezas nas mãos
li seus caminhos
hoje eu amei
perdidamente.
me deixei te abraçar
o medo me fez rir
pude ser feliz
justo por isso
não. ainda não vi tudo
que bom!
ainda há.
nas pontas dos dedos e dentro de mim
eu ri
hoje eu amei
livremente
ah! a "menina"
entregue e inteira
é o que transborda de meu hálito
hoje eu amei
suavemente
e a mim ratifiquei quem sou
delicadamente.
leitura em braile
seus poros
suas costas
asperezas nas mãos
li seus caminhos
hoje eu amei
perdidamente.
me deixei te abraçar
o medo me fez rir
pude ser feliz
justo por isso
não. ainda não vi tudo
que bom!
ainda há.
nas pontas dos dedos e dentro de mim
eu ri
hoje eu amei
livremente
ah! a "menina"
entregue e inteira
é o que transborda de meu hálito
hoje eu amei
suavemente
e a mim ratifiquei quem sou
sexta-feira, janeiro 09, 2009
quarta-feira, dezembro 03, 2008
hum
fiquei com vontade
de novo
pensei que esqueceria
fazia tempo que pensava
não sentir falta
mas é mesmo
só chegar perto
ficar às voltas
o cheiro
a coisa que não se explica
vai entender...
eu não
só ficando longe
distraindo a vista
desviando o peito
porque vivo sim
sem esse negócio
quando quiser eu paro
já disse
já parei várias vezes
só preciso da distância segura
só preciso não ver
mais que vejo
pois que preciso
respirar mais solto
"deixa isso pra lá"
"vai e busca"
é a voz andrógina
ancorada no cerebelo
e eu prá lá e prá cá
eu o próprio vencido me convencendo do contrário
então vou e volto
parto e fico
espero e desisto
insisto e assisto ao recomeço
e ainda assim segue a cena
e mais um persongem me abriga
fiquei com vontade
de novo
pensei que esqueceria
fazia tempo que pensava
não sentir falta
mas é mesmo
só chegar perto
ficar às voltas
o cheiro
a coisa que não se explica
vai entender...
eu não
só ficando longe
distraindo a vista
desviando o peito
porque vivo sim
sem esse negócio
quando quiser eu paro
já disse
já parei várias vezes
só preciso da distância segura
só preciso não ver
mais que vejo
pois que preciso
respirar mais solto
"deixa isso pra lá"
"vai e busca"
é a voz andrógina
ancorada no cerebelo
e eu prá lá e prá cá
eu o próprio vencido me convencendo do contrário
então vou e volto
parto e fico
espero e desisto
insisto e assisto ao recomeço
e ainda assim segue a cena
e mais um persongem me abriga
quinta-feira, outubro 30, 2008
domingo, outubro 26, 2008
terça-feira, outubro 21, 2008
quinta-feira, setembro 25, 2008
quarta-feira, setembro 24, 2008
segunda-feira, setembro 22, 2008
Ana Crônica
Meu tempo é tempo torto
de quem não sabe as horas
não usa relógio
de quem perde o trem
chega atrasado e pede desculpas pelo transtorno
de quem tá sempre atrás
de quem diz palavra em "momento impróprio"
de quem tenta o jogo depois dos 45 do segundo tempo
de quem ainda insiste em rimas pobres porque acredita que até isso pode ser charmoso
sou Ana Crônica
a que se perdeu no meio do caminho durante sua viagem interplanetária
descrobriu tarde demais "agora?" que o tempo não tem volta
e que as voltas que o tempo dá
são saltos mortais em seu pensamento
Ana Crônica está tonta com as voltas que o tempo dá
Ana Crônica tem náusea
e tenta o vômito
que é o retorno do que foi saboreado
mas o gosto é outro
"desculpe pelo transtorno"
" É Ana Crônica o tempo não espera você entender o tempo vigente"
Vai Ana Crônica ser retardatária na vida
"Perdeu, perdeu"
Perdeu a viagem
Ficou por aí tentando compreender "O Tempo das Coisas"
Sim há "um tempo das coisas"
o que é hoje já pode não ser amanhã
Mas Ana Crônica tem dificuldade em perceber
Está sempre atrás
Atrás das coisas do tempo que foge dela se rindo todo
Ana Crônica usa despertador, mas não acorda.
Perde o sono à madrugada e quer dormir pela manhã
Ana Crônica sempre atrás do bonde
sempre pela prorrogação do jogo
Ana Crônica
Perdeu o trem da história
Foi atroplelada
Atrapalhando o sábado
de quem não sabe as horas
não usa relógio
de quem perde o trem
chega atrasado e pede desculpas pelo transtorno
de quem tá sempre atrás
de quem diz palavra em "momento impróprio"
de quem tenta o jogo depois dos 45 do segundo tempo
de quem ainda insiste em rimas pobres porque acredita que até isso pode ser charmoso
sou Ana Crônica
a que se perdeu no meio do caminho durante sua viagem interplanetária
descrobriu tarde demais "agora?" que o tempo não tem volta
e que as voltas que o tempo dá
são saltos mortais em seu pensamento
Ana Crônica está tonta com as voltas que o tempo dá
Ana Crônica tem náusea
e tenta o vômito
que é o retorno do que foi saboreado
mas o gosto é outro
"desculpe pelo transtorno"
" É Ana Crônica o tempo não espera você entender o tempo vigente"
Vai Ana Crônica ser retardatária na vida
"Perdeu, perdeu"
Perdeu a viagem
Ficou por aí tentando compreender "O Tempo das Coisas"
Sim há "um tempo das coisas"
o que é hoje já pode não ser amanhã
Mas Ana Crônica tem dificuldade em perceber
Está sempre atrás
Atrás das coisas do tempo que foge dela se rindo todo
Ana Crônica usa despertador, mas não acorda.
Perde o sono à madrugada e quer dormir pela manhã
Ana Crônica sempre atrás do bonde
sempre pela prorrogação do jogo
Ana Crônica
Perdeu o trem da história
Foi atroplelada
Atrapalhando o sábado
sexta-feira, setembro 12, 2008
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