quarta-feira, setembro 24, 2008

segunda-feira, setembro 22, 2008

Ana Crônica

Meu tempo é tempo torto
de quem não sabe as horas
não usa relógio
de quem perde o trem
chega atrasado e pede desculpas pelo transtorno
de quem tá sempre atrás
de quem diz palavra em "momento impróprio"
de quem tenta o jogo depois dos 45 do segundo tempo
de quem ainda insiste em rimas pobres porque acredita que até isso pode ser charmoso
sou Ana Crônica
a que se perdeu no meio do caminho durante sua viagem interplanetária
descrobriu tarde demais "agora?" que o tempo não tem volta
e que as voltas que o tempo dá
são saltos mortais em seu pensamento
Ana Crônica está tonta com as voltas que o tempo dá
Ana Crônica tem náusea
e tenta o vômito
que é o retorno do que foi saboreado
mas o gosto é outro
"desculpe pelo transtorno"
" É Ana Crônica o tempo não espera você entender o tempo vigente"
Vai Ana Crônica ser retardatária na vida
"Perdeu, perdeu"
Perdeu a viagem
Ficou por aí tentando compreender "O Tempo das Coisas"
Sim há "um tempo das coisas"
o que é hoje já pode não ser amanhã
Mas Ana Crônica tem dificuldade em perceber
Está sempre atrás
Atrás das coisas do tempo que foge dela se rindo todo
Ana Crônica usa despertador, mas não acorda.
Perde o sono à madrugada e quer dormir pela manhã
Ana Crônica sempre atrás do bonde
sempre pela prorrogação do jogo
Ana Crônica
Perdeu o trem da história
Foi atroplelada
Atrapalhando o sábado

sexta-feira, setembro 12, 2008

quinta-feira, setembro 11, 2008

segunda-feira, setembro 08, 2008

quarta-feira, agosto 27, 2008

Godogo...

amo
amo tanto que.
amo tanto que por enquanto não digo.
amo errado.
sou errado.
todo errado
tudo errado
desabrigo
uma mão é uma mão
ou
uma mão é um mamão
eu lembro
sopa de ervilha nas ruas dessa cidade
lanche na Biblioteca Nacional
blusa de escola
e um godogo sorrindo
amo errado
sou este erro solto
perambulando na Cinelândia
sem encontrar
sentido

segunda-feira, agosto 25, 2008

Pra você Dô

Se fiquei esperando meu amor passar


"Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então, eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
...

Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu

...

Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Dai-nos a paz."

Legião Urbana


Ir contra a maré

Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse às últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.

Clarice Lispector - Aprendendo a viver

Aprender a viver

Pudesse eu um dia escrever uma espécie de tratado sobre a culpa.
Como descrevê-la, aquela que é irremissível, a que não se pode corrigir? Quando a sinto, ela é até fisicamente constrangedora: um punho fechando o peito, abaixo do pescoço: e aí está ela, a culpa . A culpa? O erro, o pecado. Então o mundo passa a não ter refúgio possível. Aonde se vá e carrega-se a cruz pesada, de que não se pode falar.
Se se falar - ela não será compreendida. Alguns dirão - "mas todo mundo..." como forma de consolo. Outros negarão simplesmente que houve culpa. E os que entenderem abaixarão a cabeça também culpada. Ah, quisera eu ser dos entram numa igreja aceitam a penitência e saem mais livres. Mas não sou dos que se libertam. A culpa em mim é algo tão vasto e tão enraizado que o melhor é ainda aprender a viver com ela, mesmo que tire o sabor do menor alimento tudo sabe mesmo de longe a cinzas.

Clarice Lispector - Aprendendo a viver



Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.

... Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.

...Thoreau dizia... tenha pena de si mesmo. Ele aconselhava um pouco menos de dureza... Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio... creio que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força. E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas - e quem não faz isso? - ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!

Clarice Lispector - Aprendendo a viver

domingo, agosto 10, 2008



Os homens
Em água e vinho se definem os homens.
Homem água. È aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
— boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.
É como água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que
encontramos na vida
— os Bons da Terra — Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.
Há também, lado-a-lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em
todos os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.
Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir - conduz.
Não improvisa - estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiam,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.
Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.
Em qual dos grupos se julga situado você, leitor amigo?


Cora Coralina Do livro: "Vintém de Cobre", 4ª ed., Editora UFG, 1987, GO

sexta-feira, agosto 08, 2008

terça-feira, agosto 05, 2008

que vontade de te dar um abraço!

que vontade de te dar um abraço!
e dizer o não dito guardado por tanto tempo e que agora não é mais importante pra nossa história, mas (ainda)necessário pra mim. foi bom te ver a uma distância segura e... perversa porque impeditiva aos arroubos que a saudade poderia provocar.
vi com carinho um sorriso que conheci e que algumas vezes provoquei.
tive inveja. senti uma melancolia típica de quem sabe que o tempo não volta e que hoje consegue entender que nada poderia ter sido diferente para que hoje pudesse saber que nada poderia ter sido diferente. mas poderia. sempre pode. eu sei. mas essa sensação é uma dorzinha fina, leve, delicada que se aninha aqui no peito e que carrego ao lado das outras mais recentes que abriguei, só pelo hábito de colecionar desagradozinhos que alimentam as histórias que conto a mim mesma.
hoje te vi. e assisti a minha primeira aula de filosofia (é. pedi reingresso e voltei ao IFCS) e também foi minha primeira aula de música no Villa Lobos.
dia de retornos. e ó que é que eu busco? um pouco de mim. eu sei. e um pouco de você. desse "nós" que ficou lá. numa aquarela ocre. na memória. que gosto bom esse... de me rever dez anos atrás quando dividia meu tempo entre a sociologia e o teatro (e te perdia enquanto me descobria) e agora me fragmento entre as questões que me mostram quem sou. antes eu tinha certezas e objetivos. hoje tenho (algum) prazer e nenhum pragmatismo. cada vez menos. desculpe. sou isto. esse ser inconstante, insatisfeito.
que vai se rendendo a si mesmo por não saber bem de que outro jeito ser.
queria falar tanto mais. mas pra quê? pra me sentir melhor. de quê? pra saber que você sabe que sinto isto. por quê? as palavras são insuficientes. é como se elas saíssem de mim e quando chegassem aí já estivessem gastas, desbotadas, sem força. é a impotência da linguagem. engraçado. foi sobre isso que falamos hoje na aula de filosofia conteporânea. a distância entre linguagem e verdade. lembrei de pirandelo "assim é se lhe parece". também lembrei de platão: a realidade das coisas e a ilusão de sua representação, ou algo parecido...
e agora o dia acabou. dia bonito. solitário. desses dias que a gente passa sem falar mais que o necessário com os colegas de trabalho enquanto o fluxo do monólogo interno se mantém. ininterrupto. é por isso que tenho dificuldade de admitir que preciso de terapia. vou arrumando as gavetas quando falo. sozinha que seja. quando escrevo. mesmo um texto como esse... mas é que é muito bom me perceber por mim mesma. ver quem sou hoje pela opções que fiz há anos.é claro que hoje não seria tão dura, enfática, inclemente. não tenho mais energia pra isso. é. é a idade. mas é justo por ter sido que não sou mais (e que não preciso mais). não quero mais salvar o mundo. que peso tirei das costas! admito que não posso salvar nem os mais próximos. porque. quem disse que o que penso é salvação. que puta arrogância! se eu puder quero só viajar. fazer um mestrado pra "fazer jus ao percentual de aumento no salário" (e, claro, olha que luxo! ter o prazer do conhecimento...)
e deixar a vida seguir. com a saudade, sim tenho sim saudade, do tempo que via no teatro algo além de via de ascensão social. hoje nem isso. será que esse é o gosto dos trinta e poucos? não sei nunca vivi isso antes. como nunca tinha vivido as outras idades antes.
seja como for "ando devagar porque já tive pressa..."
e talvez. hum... talvez (pensei nisso) lá pelo terceiro período mude de curso: geografia, literatura, dança ou direito. não sei ainda.

sexta-feira, julho 25, 2008

segunda-feira, julho 21, 2008