segunda-feira, agosto 25, 2008

Pra você Dô

Se fiquei esperando meu amor passar


"Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então, eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
...

Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu

...

Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Dai-nos a paz."

Legião Urbana


Ir contra a maré

Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio, sempre sem jamais deixar que ele me levasse às últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital. E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui. Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.

Clarice Lispector - Aprendendo a viver

Aprender a viver

Pudesse eu um dia escrever uma espécie de tratado sobre a culpa.
Como descrevê-la, aquela que é irremissível, a que não se pode corrigir? Quando a sinto, ela é até fisicamente constrangedora: um punho fechando o peito, abaixo do pescoço: e aí está ela, a culpa . A culpa? O erro, o pecado. Então o mundo passa a não ter refúgio possível. Aonde se vá e carrega-se a cruz pesada, de que não se pode falar.
Se se falar - ela não será compreendida. Alguns dirão - "mas todo mundo..." como forma de consolo. Outros negarão simplesmente que houve culpa. E os que entenderem abaixarão a cabeça também culpada. Ah, quisera eu ser dos entram numa igreja aceitam a penitência e saem mais livres. Mas não sou dos que se libertam. A culpa em mim é algo tão vasto e tão enraizado que o melhor é ainda aprender a viver com ela, mesmo que tire o sabor do menor alimento tudo sabe mesmo de longe a cinzas.

Clarice Lispector - Aprendendo a viver



Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.

... Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.

...Thoreau dizia... tenha pena de si mesmo. Ele aconselhava um pouco menos de dureza... Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio... creio que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força. E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas - e quem não faz isso? - ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique!

Clarice Lispector - Aprendendo a viver

domingo, agosto 10, 2008



Os homens
Em água e vinho se definem os homens.
Homem água. È aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
— boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.
É como água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que
encontramos na vida
— os Bons da Terra — Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.
Há também, lado-a-lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em
todos os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.
Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir - conduz.
Não improvisa - estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiam,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.
Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.
Em qual dos grupos se julga situado você, leitor amigo?


Cora Coralina Do livro: "Vintém de Cobre", 4ª ed., Editora UFG, 1987, GO

sexta-feira, agosto 08, 2008

terça-feira, agosto 05, 2008

que vontade de te dar um abraço!

que vontade de te dar um abraço!
e dizer o não dito guardado por tanto tempo e que agora não é mais importante pra nossa história, mas (ainda)necessário pra mim. foi bom te ver a uma distância segura e... perversa porque impeditiva aos arroubos que a saudade poderia provocar.
vi com carinho um sorriso que conheci e que algumas vezes provoquei.
tive inveja. senti uma melancolia típica de quem sabe que o tempo não volta e que hoje consegue entender que nada poderia ter sido diferente para que hoje pudesse saber que nada poderia ter sido diferente. mas poderia. sempre pode. eu sei. mas essa sensação é uma dorzinha fina, leve, delicada que se aninha aqui no peito e que carrego ao lado das outras mais recentes que abriguei, só pelo hábito de colecionar desagradozinhos que alimentam as histórias que conto a mim mesma.
hoje te vi. e assisti a minha primeira aula de filosofia (é. pedi reingresso e voltei ao IFCS) e também foi minha primeira aula de música no Villa Lobos.
dia de retornos. e ó que é que eu busco? um pouco de mim. eu sei. e um pouco de você. desse "nós" que ficou lá. numa aquarela ocre. na memória. que gosto bom esse... de me rever dez anos atrás quando dividia meu tempo entre a sociologia e o teatro (e te perdia enquanto me descobria) e agora me fragmento entre as questões que me mostram quem sou. antes eu tinha certezas e objetivos. hoje tenho (algum) prazer e nenhum pragmatismo. cada vez menos. desculpe. sou isto. esse ser inconstante, insatisfeito.
que vai se rendendo a si mesmo por não saber bem de que outro jeito ser.
queria falar tanto mais. mas pra quê? pra me sentir melhor. de quê? pra saber que você sabe que sinto isto. por quê? as palavras são insuficientes. é como se elas saíssem de mim e quando chegassem aí já estivessem gastas, desbotadas, sem força. é a impotência da linguagem. engraçado. foi sobre isso que falamos hoje na aula de filosofia conteporânea. a distância entre linguagem e verdade. lembrei de pirandelo "assim é se lhe parece". também lembrei de platão: a realidade das coisas e a ilusão de sua representação, ou algo parecido...
e agora o dia acabou. dia bonito. solitário. desses dias que a gente passa sem falar mais que o necessário com os colegas de trabalho enquanto o fluxo do monólogo interno se mantém. ininterrupto. é por isso que tenho dificuldade de admitir que preciso de terapia. vou arrumando as gavetas quando falo. sozinha que seja. quando escrevo. mesmo um texto como esse... mas é que é muito bom me perceber por mim mesma. ver quem sou hoje pela opções que fiz há anos.é claro que hoje não seria tão dura, enfática, inclemente. não tenho mais energia pra isso. é. é a idade. mas é justo por ter sido que não sou mais (e que não preciso mais). não quero mais salvar o mundo. que peso tirei das costas! admito que não posso salvar nem os mais próximos. porque. quem disse que o que penso é salvação. que puta arrogância! se eu puder quero só viajar. fazer um mestrado pra "fazer jus ao percentual de aumento no salário" (e, claro, olha que luxo! ter o prazer do conhecimento...)
e deixar a vida seguir. com a saudade, sim tenho sim saudade, do tempo que via no teatro algo além de via de ascensão social. hoje nem isso. será que esse é o gosto dos trinta e poucos? não sei nunca vivi isso antes. como nunca tinha vivido as outras idades antes.
seja como for "ando devagar porque já tive pressa..."
e talvez. hum... talvez (pensei nisso) lá pelo terceiro período mude de curso: geografia, literatura, dança ou direito. não sei ainda.

sexta-feira, julho 25, 2008

segunda-feira, julho 21, 2008

terça-feira, julho 15, 2008

à toa

Eu quero é mais!
que seja
que venham todas essas dores que estão guardadas pra mim
eu sou assim mesmo. Me derramo, me espalho e me transbordo porque minha temperatura é essa mesmo. Eu quero é mais e sempre. Eu abro a boca na chuva. E como esse mundo e mastigo devagarinho pra não engasgar. Eu quero é gargalhar numa tarde de sol com um pouco menos de culpa.
Eu amo mesmo. E descubro camadas desse amor que há em mim. Quantas maneiras há de amar...
Eu quero todas! Eu preciso salivar, eu quero babar pela vida. Eu preciso correr pelas ruas fazendo de conta que tô numa dessas comédias românticas com final feliz.
Pra depois amarrar o cabelo, ir ao mercado e marcar um dentista.
Não nasci pra sofrer, já sei. Às vezes me engano. Às vezes. Mas é bom demais andar à toa.
Eu quero é mais! Andar à toa.

segunda-feira, julho 14, 2008

sei

passeio
passeio
pas seio
pas sei-o
passei-o
passei. o
paz sei. o
passei
passei
pas sei.
passei
passei
o
sei

terça-feira, julho 08, 2008

domingo, julho 06, 2008

muda (?!?)

não preciso dizer
nada
não posso
é só mais uma história sem importância nenhuma pra ninguém
talvez vire ficção. talvez um verso. nem isso. e pra que isso?
tudo isso. e nada. e só. depois nem história. pra quê?
porque preciso?
não sei. é só um mal-estar que vai passar. de novo. é só a garganta ardendo assim.
uma ponte direta entra o estômago e aqui, bem aqui esse ponto aqui na.
sabe aqui. onde começa a língua? então. é só isso. é só um mal-estar.
e tanto que foi dito. mais não. é um queimor assim. como quando a gente come pimenta.
então. não dá pra falar.
é só isso. sabe aqui no. um incêndio aqui no esterno.
é só. beber água. oito copos, né? bom pra pele. acho.
talvez ler. quem sabe? o que leu na última semana?
não tem importância nenhuma. porque somos os mesmos. não não somos mais os mesmos.
contar moedinhas pra ir ao cinema já não tem mais graça nenhuma.
(será que um dia achei graça nisso?)
mas não rimos mais um do outro ou com o outro.
as moedinhas hoje estão por aí no fundo de alguma gaveta.
mas agora isso não tem mais importância, ou como diria você relevâcia alguma.
talvez apenas uma tonsilite.
talvez só essa crônica (?!)muda.

quarta-feira, junho 04, 2008

segunda-feira, abril 21, 2008

Aí que.

Eita que não morri! Que tô aqui e nem sei porquê.
Eita que, agora que já sei que, quando o que se quer mesmo é sumir, evaporar-se, esfumaçar-se, sair-se de. Aí que. Mesmo quando, o que se quer é se esconder, pensar em não pensar. Esfarelar os sentidos. Refluir as idéias.
Se diluir, derreter, dissolver, desvanecer, dissipar, dispersar, desprender. Distrair-se de si.
Desviar-se do espelho, do relógio, do calendário, da balança, da conta, do medo.
Do olho alheio. Do soslaio.
Borrifar-se no tempo.
Aí é que se descobre que se resiste, persiste, permanece, mantém-se, conserva-se. Inteiro. (?)
Quer-se desistir-se. Deixar-se. Esvair-se. Esvaziar-se.
Quer-se ficar aqui, ali, assim, por aí.
Quieto. Minimo. Ínfimo. Invisível. Esquecido. Descansado.
E no entanto.
Ainda há.
Há. Ainda.
Por mais que se queira virar pó. Poeira.
Se existe.
Se há.
Se é.
Por mais que.
Findar-se. Sustar-se. Estacar. Estancar-se. Esquecer-se.
De si.
Aí é que.
Sustém-se. Assim. Gasto. Avariado. Abatido. Fracionado.
E (ainda) se quer. Um filete, uma sombra, um sopro, um espirro, sinal, traço ou vestígio. Um pretexto. Que seja.
Margem. Miragem. Que seja. Pra onde ir.

terça-feira, março 04, 2008

Memória Viva de Carlos Drummond de Andrade

Memória Viva de Carlos Drummond de Andrade

O Deus de cada homem

Quando digo “meu Deus”,
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.

Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.

Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.


Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade

Carlos Drummond de Andrade.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Só eco.

Estou voltando depois de quase um mês sem postar e cheguei a ter dúvidas se continuaria...
"Pra quê?"
É o que me pergunto. Sou só eco. É tanto barulho ultimamente.
Melhor calar. E não estou bem certa sobre o que fazer, aliás cada vez tenho menos certeza sobre quase tudo. Mas o que me animou foram os comentários desses amigos virtuais: Diego, André, e até o Iuri que veio ao Café pela primeira vez.
Foi bom lê-los.
Nos próximos posts vou contando alguns fragmentos desse meu fevereiro tão... Marcante.
Estou meio cansada, embora o sorriso esteja sempre às ordens pra ir levando a vida.
É meu escudo já aprendi faz tempo. As tarefas estão todas aí pra serem cumpridas.
As persigo. Agora vou dormir. Amanhã acordo cedo.

quinta-feira, janeiro 31, 2008